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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sou meu desconhecido


É verdade que quase não conhecemos as pessoas. Aliás, nos conhecemos muito pouco. Como já disse Clarice Lispector, “Sou meu desconhecido” – e se ela disse, quem sou eu para discordar. Nós nos descobrimos e redescobrimos ao longo da vida. Mas até que ponto uma pessoa se reconhece?
Qualquer um pode se identificar com um texto, um personagem, um autor. Pensar “oh, meu Deus, achei que eu fosse o único que pensasse assim”.  Ou que aquilo que está lendo se encaixa perfeitamente com algum momento de sua vida.
Mas, e quando alguém que você conhece escreve algo sobre você (sem dizer seu nome), você seria capaz de reconhecer? Se for algo que você vivenciou com a pessoa, algo que você disse ou fez, provavelmente sim, correto? Mas e quando não é tão óbvio? Você seria capaz de identificar se aquilo é ou não para você, ou nem sequer pensaria nisso?
Digo isso não só porque escrevo (felizmente, minhas inspirações não são todas de carne e osso), mas também porque, surpreendentemente, já escreveram sobre mim. Eu nunca pensei que alguém pudesse me descrever como “delicada como a rosa, misteriosa como o vento”. Pois é, eu não me reconheci. Mas adorei, foi meu momento musa (não me leve a mal). Se eu tivesse apenas lido em algum lugar, jamais pensaria “eu sou assim”, “isso é pra mim”. Eu provavelmente pensaria “como eu gostaria de ser assim”, porque eu não me vejo dessa forma (bem, não exatamente), e não pensei que alguém pudesse me ver assim.
Curiosamente, isso se encaixa perfeitamente com a imagem que eu tinha de uma amiga minha (nós já éramos amigas ou eu queria ser amiga dela? Enfim...) Uma garota mais quieta do que eu e muito inteligente. Eu a via assim, embora não tivesse formado essas palavras, e não sabia que eu era assim também.
Se me dissessem “escrevi algo sobre você” ou “para você” eu ficaria no mínimo, no mínimo curiosa.No livro Marina, de Carlos Ruiz Zafón, Marina confessa a Óscar que está escrevendo sobre ele. Óscar fica completamente assustado.
- Sobre mim? O que quer dizer com escrever sobre mim?
- Quer dizer a seu respeito, não em cima de você, como se fosse uma escrivaninha.
- Até aí eu também cheguei.
Marina se divertia com aquele nervosismo repentino.
- E então? – perguntou. – Faz uma ideia tão ruim de si mesmo que não pode aceitar que valha a pena escrever a seu respeito? (p.50)
Bem, talvez ele não fizesse uma ideia tão ruim de si mesmo. Provavelmente ele só não imaginava o que ela poderia ver de bom nele. Também não duvido que ele preferisse ser feito de escrivaninha – momentaneamente, pelo menos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Outro


Dias atrás eu tive uma aula realmente interessante, até especial. Nós continuamos a discutir o conto “O Búfalo” de Clarice Lispector, e a professora passou elementos e etapas de interpretação, entre eles a psicanálise.
Ela falou da coexistência, que nós coexistimos em sociedade. E falou da questão do “outro”, dizendo que buscamos no outro o que falta em nós – a mulher do conto, no caso, buscava um sentimento que ela não tinha. A busca pelo estranho que parecia já ser parte dela.
A professora começou dizendo que às vezes a gente gosta de alguém e não sabe por que gosta. Às vezes a gente se aproxima de uma pessoa e não sabe por quê. Isso me agrada. E esse gostar, essa aproximação espontânea da qual ela falava despertou algo em minha memória.
Prestando atenção ao que ela diz, às vezes me lembro de outras coisas, faço associações, me lembro de frases que sintetizam o que foi dito. Nem sempre posso dizer tudo, ou acabaria interrompendo.
Enquanto ela falava sobre o outro, ter o outro como espelho, eu me lembrei de um texto que eu escrevi há mais de dois anos e pensei “É exatamente isso. O que ela está falando, tem tudo a ver.” E eu tremia, ansiosa para falar. Mas não era o tipo de tremor por causa do nervosismo que os alunos sentem ao falar para a professora e para toda a classe. Não, não era. Era um tremor vindo da necessidade que eu tive de me expressar. Senti-me assim em alguns momentos, não exatamente pela vontade de me expressar, mas porque algo havia me tocado por dentro, me lembrando de algo que me faz bem. Um tipo de prazer proporcionado apenas pela arte.
Enfim eu levantei a mão e ela me permitiu a fala, e eu falei o texto que estava na minha cabeça.
Olhos negros me encontram.
Gentis, me chamam.
Seus movimentos são suaves,
me atraem, me cativam.
Fazem de mim um espelho,
recebendo e propondo.
Juntos, criamos.
Sem me tocar, me toca.
Me embala numa doce canção de ninar.*
Eu disse, olhando em seus olhos escuros, profundos e, por vezes, impenetráveis. Ela que, assim como quem inspirou o poema, tem olhos escuros que contrastam com sua pele clara.
Quando terminei, ela me respondeu “Bonito. Qual o autor?”.
Se eu me senti uma escritora nesse momento? Não, imagina...
Bem, a verdade é que eu sorri, lisonjeada (e um pouco surpresa) e respondi “É meu”.

*Espelho